segunda-feira, 9 de maio de 2011

CARTA DE EXONERAÇÃO DO PARTIDO COMUNISTA BRASILEIRO

CARTA DE EXONERAÇÃO DO PARTIDO COMUNISTA BRASILEIRO

André Luan Nunes Macedo
São João del-Rei, 10 de maio de 2011, às 02:27 AM
Aos camaradas da União da Juventude Comunista/ Partido Comunista Brasileiro,

A nossa história dentro desta organização revolucionária se confunde com o que aprendemos no movimento estudantil da Universidade Federal de São João Del-Rei. A prática militante construída baseada na experiência da democracia participativa foi o nosso estímulo para defender uma práxis no movimento estudantil que se identificasse com as experiências revolucionárias consolidadas no século XIX (como a Comuna de Paris), do século XX (Revoluções Russa, Chinesa, Cubana) e aquelas que pretendem consolidar o socialismo no século XXI (Venezuela, Bolívia e Equador). Todas elas se propõem a discutir a centralidade do poder, a construção de um novo Estado, por meio da consolidação de canais representativos mais concretos para a ação política da classe trabalhadora.
O DCE UFSJ fez uma grande escola de militantes, em sua grande maioria, não comunistas, mas que defendiam o poder dos Centros Acadêmicos, ou seja, os interesses da base estudantil. Nesse espaço plural e democrático aprendemos a discutir nossos anseios políticos de forma livre e aberta. Jamais fomos censurados ou coagidos no DCE UFSJ, desde o início de nossa militância. No entanto, o embate e a crítica de visões de mundo diferenciadas, horizontalmente colocadas no mesmo espaço, permitiram-nos enxergar a necessidade de organização política identificadas com nossos anseios de transformação radical da estrutura social que vivemos.
Devido a esse desejo de ampliar nosso horizonte de atuação e refletir mais racionalmente sobre a ação política que procuramos o Partido Comunista Brasileiro em São João del-Rei. Fomos recebidos de braços abertos, com todos os camaradas deste núcleo, que na época se dispuseram a apresentar as grandes críticas possíveis sobre o movimento estudantil nacional e suas relações com as práticas colocadas pelo Estado capitalista. Sabíamos de nossa função no Partido: convencer os demais camaradas de um método adequado para os comunistas criarem um terreno de disputa nas universidades, no qual poderia ser mais vantajoso para eles (leia-se: mais democrático para todos os estudantes), sem que houvesse o investimento financeiro de partidos em grandes eleições e que as bases pudessem legitimar seu poder a partir de uma democracia de novo tipo, considerada por nós como revolucionária.
Acreditávamos que o caminho a ser trilhado no PCB seria de grande relevância e fácil aceitação. Doce ilusão. O “céu de brigadeiro” da abertura do espaço crítico e do exercício da dialética só existia em ações ditas isoladas, como a publicação de textos na Internet e em reuniões em São João del-Rei. Mesmo assim, muitas das idéias publicadas nas redes virtuais recebiam um tom de coação. Houve momentos em que pediu-se a retirada de textos sem qualquer explicação pela Coordenação Regional de Minas Gerais, embasado em uma discussão de autoridade, quando da análise de conjuntura das eleições de 2010, por exemplo.
Pudemos presenciar práticas que nos fazem desacreditar numa mudança efetiva dos rumos da democracia interna do Partido. Assistimos a bofetadas políticas através de “carteiradas oficialescas” da Secretaria Nacional da Juventude, ocorrida no V Congresso da UJC; uma eleição problemática da Coordenação Nacional da Juventude nesse mesmo espaço; uma tentativa de intervenção clara nos espaços deliberativos da coordenação estadual em relação à campanha do Movimento a Hora é Essa! na UFMG; uma ausência enorme de debates públicos, partindo de uma visão mitológica do que é ou deveria ser o centralismo democrático, entendido por alguns dirigentes como um semblante conspiratório, ligado essencialmente a uma incompreensão do que é o partido “pequeno mas bom” proclamado por Lênin em 1917 e o “Partido pequeno mas bom” no contexto brasileiro.
Apesar de todos os problemas apontados nos dois últimos parágrafos acima, é impossível deixar de agradecer todos os camaradas do PCB pela mudança drástica que o lema revolucionário pôde nos trazer. Saímos de um universitário que, além das suas atividades acadêmicas, jogava basquete, para buscar compreender o movimento da vida do homem, suas práticas e a existência da dominação em nossa sociedade. Se não fosse esse espaço, jamais poderíamos compartilhar os erros que tanto cometi em momentos cruciais; jamais poderíamos contar com o apoio de camaradas fundamentais em nossa trajetória política; jamais poderíamos nos sentir humano diante das grandes contradições bárbaras expostas pelo paradigma de produção dominante para todo cidadão comum.
Sentimo-nos honrados por ter participado da construção de um núcleo em São João del-Rei que se mostrou eficiente em muitos momentos nas suas ações e na sua qualidade intelectual. Numa cidade conservadora em que Tancredo Neves é o grande “pai da democracia”, ter um Partido como o PCB em sua história, capaz de se contrapor a 300 anos de histórias contadas pelas oligarquias locais, nos faz ter a esperança em um futuro melhor.
Assim como agradeci no meu trabalho de conclusão de curso, volto a agradecer nominalmente aos grandes intelectuais que certamente ainda muito nos ajudarão na luta por algo que todo cidadão comum em sã consciência deveria fazer para conseguir transformar o destino da vida humana. Em especial aos camaradas Abiatar, Sammer, Alex, Luisa, Bernardo, Tiago, Marcela, Rafinha, Juliar, Tata e Wlamir: obrigado por fornecerem suas inteligências para se contrapor ao certo e ao verdadeiro em nossa sociedade e terem nos ajudado tanto a compreender a realidade.
Pelos motivos expostos, sentimos a necessidade de exonerarmos nosso cargo de representante da Coordenação Nacional da União da Juventude Comunista, assim como da representação estadual do mesmo e do Partido Comunista Brasileiro. Esperamos que a luta iniciada pela democracia no PCB tenha continuidade por outros camaradas que tanto confiamos. Vida longa ao Partidão, ao marxismo-leninismo e a todos aqueles dispostos a lutarem pela necessária revolução socialista em nossa Pátria, com a certeza que estaremos juntos nessa dura caminhada.


Atenciosamente,

André Luan Nunes Macedo
Obs: Queremos deixar claro que nossa decisão já vinha sendo pensada desde o ano passado, quando as crises colocadas foram se acumulando.

3 comentários:

  1. Estou muito ocupado para o debate sobre mais esta sáida.Mas como as ideias ficam e as pessoas vão ,ainda pretendo escrever algumas palavras sobre este ato desse outro "ex-camarada".

    Em breve!

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  2. Caro Sturt,

    Gostaria que você se apresentasse, pois até hoje nem sei quem é você, de onde é etc. Assim poderei te chamar de "camarada". Saiba que considero todos aqueles que ainda estão no PCB como grandes amigos e que respiram o mesmo ar revolucionário que o meu. Portanto, acredito não ter deixado de ser um camarada de nenhum daqueles que se encontram no PCB no momento.
    Grande abraço,
    André Luan

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  3. Camarada, embora eu não pertença ao núcleo comunista de Minas Gerais, pois mudei-me para Goiás, acompanhei com entusiasmo as articulações e lutas políticas do PCB de sua cidade, ainda que a distância. Apesar dos conflitos e divergências, a luta não pode parar. Talvez sua saída seja precipitada e um erro politico mas vc tem seus motivos pessoais e devemos respeitar democráticamente sua decisão. Um abraço e boa sorte em sua carreira profissional, agora como egresso da universidade.

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